E la nave va...

André Trigueiro

 

Atenção, senhores passageiros!

Lamentamos informar que neste momento navegamos pelo universo a bordo de uma nave que vem inspirando cuidados cada vez maiores em todos os passageiros. Tecnicamente estamos à deriva, mas não há motivo para pânico. Ainda é possível restabelecer as condições de vôo, desde que todos colaborem. Os passageiros da primeira classe, principalmente.

A fumaça lançada no ar pelos mais ricos fez a temperatura aumentar 0,6ºC no último século. Neste ritmo, chegaremos ao final deste século com a temperatura aumentando de um a seis graus centígrados. Nosso sistema de refrigeração não é capaz de enfrentar esse aquecimento global. É importante lembrar que a situação do passageiro norte-americano, sentado na primeira fila. Se todos a bordo quiserem imitar os hábitos de consumo dele, não haverá água, alimento e energia para seguir a viagem. E não adianta reclamar, mister George!

Outra coisa: não há água limpa suficiente para todos. Ou evitamos o desperdício, distribuindo melhor o que resta, ou teremos sérios problemas daqui para frente. Lembramos que dividimos espaço com outras formas de vida, que chegaram antes de nós e que estão desaparecendo rapidamente, numa velocidade dez mil vezes maior do que antes de nossa chegada. Cada um de nós, nesta nave, tem uma função, portanto, cada espécie animal ou vegetal extinta produz impactos importantes no equilíbrio da vida.

A distribuição dos passageiros pela nave se dá de forma desigual. Quase metade dos lugares é ocupado por passageiros que sobrevivem com apenas 2 dólares por dia. Pedimos desculpas pelas péssimas condições de viagem desse grupo, mas lembramos que a culpa não é da nave. Estamos equipados com recursos suficientes para que todos façam uma viagem tranqüila, sem agonia ou sofrimento. Se a distribuição dos recursos não se dá de forma satisfatória, o problema é de quem se apossou de muito mais do que precisa, sem prestar atenção para o que acontece em volta.

Registramos com desgosto que 800 mil passageiros encontram-se subnutridos e 24 mil morrem todos os dias por causa da fome. A nave é de paz, mas alguns passageiros, não. Percebemos, constrangidos, que os gastos crescentes com a indústria bélica, seriam mais do que suficientes para resolver o problema da fome. É importante frisar que nossa nave não dispõe de saídas de emergência nem há outra opção para os passageiros a não ser permanecer aqui. De design arrojado e semblante azul, nossa nave foi concebida para ser o mais aconchegante abrigo do universo. Por isso, pedimos a atenção dos senhores para o burburinho que está acontecendo na África do Sul, onde todos os assuntos tratados são urgentes, e de nosso interesse. Agradecemos a boa vontade de todos em discutir o plano de vôo que seguiremos daqui para a frente. Lembramos que a responsabilidade é compartilhada, e que todos contribuímos em maior ou menor grau para o sucesso desta viagem.

Publicado em O Globo, 27 de agosto de 2002, na semana da Conferência das Nações Unidas sore a Pobreza e Desenvolvimento Sustentável – Rio + 10 – na cidade de Joanesburgo. 

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